Imagem que fiz em 2011, que compõe o ensaio fotográfico simbiOlhO;(se...).
Acaba de ser publicado o texto Deslocar e fotografar: as geografias e suas alteridades, escrito em parceria com a Valéria Cazetta, na Revista Leitura: Teoria & Prática.
Esse texto é fruto de um longo processo, pois a inquietação que culminou nessa produção escrita iniciou em 2011, quando fiz uma viagem a trabalho para o Piauí para participar de um festival de cinema e representar um documentário no qual trabalhei chamado Cinema de Guerrilha, do Evaldo Mocarzel, realizado no contexto das Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual, uma oficina de cinema da Associação Cultural Kinoforum, projeto do qual fui aluna e no qual trabalhei em diversas ocasiões entre 2004 e 2014.
Nessa viagem fiz muitas fotografias da estrada, em diferentes horários. Inicialmente com um olhar curioso de quem está passeando por paisagens nunca vistas, de quem está num movimento da vida de querer conhecer e experimentar novos horizontes.
Dessa maneira fui me embrenhando naquela viagem. Entre um compromisso e outro eu registrava paisagens, pessoas, entradas de cidades, placas de sinalização e, o que mais me fascinou: o movimento dessas idas e vindas, o qual ia ficando cada vez mais marcado e mais abstrato nas linhas dessas imagens, dessas "foto-grafias", como as chamamos no texto ora publicado. As fotos noturnas feitas na estrada entre Floriano e Teresina - desde a visão de passageira de um carro em movimento - delinearam uma outra relação com aquela estrada. Uma relação feita de apostas imagéticas, pois não me era possível repetir, apenas podia ver e compor registros únicos. Acoplei meu corpo à câmera e ao carro naquele movimento ininterrupto e silencioso. Um silêncio que gritava em imagens, que grafava imageticamente os rastros coloridos daquela dança.
Anos depois (acho que em 2017 ou 18) precisei escrever um texto para um trabalho de uma disciplina do mestrado, cuja demanda implicava a análise de algum conjunto imagético. Lembrei-me dessas fotos e fiz uma primeira versão desse texto.
Mais alguns anos se passaram e esses escritos viraram aquilo que chamamos de "texto de gaveta".
- Ah um dia ainda vou publicar...
E o tempo foi passando...
E o texto seguia lá, na pilha de letras a me aguardar na tal "gaveta"...
Tentei publicar novamente, mas a avaliação do periódico considerou o texto "fora do escopo". Experimental demais... ok... de volta para a gaveta...
Chegamos em 2021. A imagem que abre essa postagem ganhou o mundo de uma outra forma, pois compôs o cartaz de divulgação do evento O Ambiente Escolar em Transformação, organizado por Ana Laura Godinho Lima (IEA e FE USP), Valéria Cazetta (IEA e EACH USP), pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP). Vale mencionar que os trabalhos apresentados nesse evento depois compuseram um livro, publicado em 2022 pela Editora Alínea.
E o texto seguia na gaveta, mas querendo sair...
Então, nesse mesmo ano, eu e Valéria unimos forças. Ela deu seu toque no texto visando recompor e tentar pensar o que poderia ser melhorado, pois depois de tantas idas e vindas eu já não sabia muito bem como tirar de vez esse trabalho do fundo da gaveta. Assim, conversamos sobre o texto e fizemos uma reescrita breve que resultou em uma versão em resumo extendido apresentada no VI Colóquio Internacional “A educação pelas imagens e suas geografias”, em Campinas (Unicamp), no início de novembro de 2021.
Chegamos em 2024, voltamos a trabalhar no texto, dessa vez visando uma versão completa para submissão na Revista Leitura: Teoria & Prática. E aqui está o resultado: texto publicado na última edição da revista, no dossiê Leituras por entre Imagens e Geografias.
Ao tomar contato com a proposta do dossiê e após ver todo o conjunto de trabalhos publicados, ficamos pensando em como esse processo longo de escrita e reescrita, entremeado por tantas idas e vindas enriqueceu a proposta que abordamos. Coisas sobre as quais tenho pensado há tantos anos que ganharam muito mais força e contornos quando resolvemos unir forças para fazer essa versão ora publicada.
Eu e Valéria estamos muito contentes em finalmente sacudir essa poeira da gaveta e ter a oportunidade de compartilhar esse texto em grande estilo! Em um dossiê que justamente demandou trabalhos experimentais e que buscassem outras leituras do mundo: que tomassem a rebeldia das leituras por entre imagens, geografias e educação como motes de composição.
Aqui está!
Aqui estamos.
Compondo uma proposta de "leitura-geografia" que primeiro experimentou o espaço daquela estrada noturna entre Floriano e Teresina em 2011 e, posteriormente, entre 2017 e 2024, compôs um trajeto peculiar de escrita, experimentando um jeito de ler as imagens, de pensar e de dispor o texto, bem como de articular e correlacionar conceitos.
2011: Uma captura imagética que dançou com as luzes daquela estrada noturna.
2017 - 2024: Um processo longo de escrita e reescrita que buscou dançar com as imagens de outrora e com o tilintar dos dedos do presente, compondo com os rastros daquelas foto-grafias e vertendo letras na tela branca.
2024: Um convite para ler, dançar e pensar de uma outra maneira as imagens, geografias e educação ao compor esse dossiê Leituras por entre Imagens e Geografias.
Imagem do ensaio fotográfico simbiOlhO;(se...) que fiz em 2011.
Deslocar e fotografar: as geografias e suas alteridades
Resumo: Objetivamos, neste ensaio, apresentar uma experiência fotográfica em torno da ideia de duração, objetivada por meio de enquadramentos fotográficos que embaralharam o tempo do obturador da máquina fotográfica, transformando um dado espaço percorrido em grafias de luzes e sombras. A problemática a ser confrontada diz respeito a um jeito de fotografar que transformou as estradas e suas linhas retas em uma mistura de espaços e tempos, materializados numa experiência estética-política, que clama por uma legibilidade menos afeita a representar algo ou alguma coisa, e mais disposta a camerar um tempo-es-paço dançarino. Nossa hipótese de trabalho é que ao nos dispormos a fotografar e a ler o que fotografamos, deslocando a alteridade para fora de uma subjetividade individualizada, tomamos o próprio deslocamento geográfico como o outro dessa experiência. Dentre as conclusões do texto, destaca-se o efeito das espacialidades nos corpos e vice-versa, não no sentido de um determinismo geográfico, mas de agenciamentos entre um e outro.
Doutoranda em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEdu/UFRGS). Bacharel em Gestão de Políticas Públicas pela Escola de Artes, Ciências e Humanidades, e Mestra em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, ambos pela Universidade de São Paulo (USP). Pesquisadora do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa em Culturas Visuais (Miragem/USP).
Valéria Cazetta
É professora da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da Universidade de São Paulo (USP). É licenciada em Geografia (1998), mestre (2002) e doutora (2005) pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). É livre-docente (2022) na área de Ciências Humanas e Artes pela EACH-USP. Pesquisadora contemplada no Edital Sabático 2020, do Instituto de Estudos Avançados (IEA-USP) em parceria com a Pró-reitoria de Pesquisa, com o projeto "A Tatuagem no Brasil: Trajetórias e Tendências de uma Prática". Participou dos projetos de pesquisa interinstitucionais: "Imagens, geografias e educação", desenvolvido com financiamento do CNPq, e "As telas da Escola: cinema e professores de geografia". Colaborou no projeto "Identidades docentes e culturas profissionais", com financiamento da FAPESP. É membro da Rede Internacional de Pesquisa "Imagens, geografias e educação" (www.geoimagens.net). Coordena o Grupo de Pesquisas Interdisciplinares em Culturas Visuais, certificado pelo Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil. É credenciada no Programa de Pós-Graduação em Estudos Culturais da Universidade de São Paulo (USP), desenvolvendo trabalhos de pesquisa multidisciplinares, na fronteira entre imagens (tatuagens, fotografias, audiovisual e cartografia), estudos culturais, geografias e educação. (Fonte: Currículo Lattes)
Ontem fui até a Cinemateca prestigiar a exibição do filme Se Trans For Mar, dirigido pela amiga querida Cibele Appes, cujo trabalho acompanho há vários
anos, desde que nos conhecemos nas Oficinas Kinoforum em meados da primeira
década dos anos 2000. Assistir a um filme da Cibele já seria motivo para tornar
a noite de ontem especial, mas, além disso, ver os outros filmes que compuseram
a sessão, e pelo fato de tudo isso ter acontecido na Cinemateca, trouxe mais
alegria ainda a esse momento.
Quando cheguei ao Largo Senador Raul Cardoso, minha primeira
reação, antes de entrar, foi ir até o outro lado da rua e olhar a Cinemateca de
um ângulo mais amplo, vislumbrando a chegada do desfile de memórias que me
atravessa sempre que vou até lá. Trabalhei ali entre 2009 e 2013, quando, por
decisões políticas que até hoje não compreendo, a Secretaria do Audiovisual
resolveu promover uma demissão em massa...
Cinemateca Brasileira: área de projeção externa.
A vida virou-se e revirou-se, busquei outros caminhos, muitas coisas aconteceram, mas sempre que vou até lá todas essas memórias retornam com uma força espetacular. Há quem diga que um espaço como aquele, que outrora já foi o Matadouro Municipal de São Paulo, é capaz de imprimir uma marca profunda em quem o frequenta. No caso, entendo isso não como aquelas marcas com ferro quente que o gado carregava, mas, de outro modo, como um sincero amor ao cinema, à sua preservação, às memórias que ali são preservadas e projetadas. Também há a efervescência das novas descobertas que aquele espaço possibilita, como por exemplo, fazendo uma sessão como a de ontem com vários curtas-metragens de jovens produtores selecionados a dedo. Poesia em estado puro.
Cinemateca Brasileira: cabine de projeção da sala Grande Otelo
O bichinho do cinema me picou, me mordeu... e ainda deixou
um pedacinho para a sobremesa...
Cinemateca Brasileira: projetor 35mm
Ao dizer isso também lembro do Sandro, meu amigo projecionista
da Cinemateca que conduziu ontem a sessão. “Você pode até demorar para vir aqui
na Cinemateca, mas não adianta, a Cinemateca te mordeu, ela morde a gente,
principalmente quando a gente trabalha aqui... já era!”. A gente começou a
conversar e os assuntos não acabavam, entre memórias e composições de ideias
novas... aliás, convido quem não viu, a assistir ao curta Balé Mecatrônico, que
fizemos juntos, visando manter vivo o trabalho que desenvolvemos, naqueles anos em que trabalhamos juntos, período em que trabalhei como gerente daquelas salas de cinema. Clique aqui para assistir no YouTube.
Sandro, o olhar do cinema nos observando atentamente e eu.
Falando um pouco mais do filme da Cibele. Percebo que uma
sementinha imagética, uma fagulha que notei lá no início dos anos 2000, quando
vi as montagens dela pela primeira vez nos filmes das oficinas, essa sementinha
está cada vez mais sofisticada. O que quero dizer com isso? Há momentos de
suspensão nos filmes da Cibele. Há momentos em que somos transportados a uma
dança imagética a qual só podemos ver ali, na tela, não adianta eu tentar
descrever muito em texto... é algo próprio do concatenar das imagens e sonoridades,
algo que mesmo estando aqui na nossa vidinha cotidiana, ao mesmo tempo não
está, um sopro, um suspiro, um sonho. Ela inclusive disse no debate que tem
apostado em uma ideia de cinema sonho. Falamos bastante sobre isso depois da
sessão, dessa potência do sonhar, de como isso está aqui no tecido de nossos
dias, de como é importante o cinema ter coragem de expor isso... e ela reforçou
que para ela é muito importante compor dessa forma.
Cibele Appes e o cinema sonho: em debate da sessão Cabíria
Fazia um tempo que eu não acompanhava de pertinho cada lançamento
dela. Imersa na correria dos dias, tive uma surpresa boa quando ela me mandou o
link do trailer. De alguma forma, seguindo os links, cheguei em outros
trabalhos dela que eu ainda não tinha visto. Nossa Voz Ecoa foi seu último
trabalho que vi com mais detalhes, até compartilhei com a turma da Etec Cepam, em que lecionava à época. Mas depois dessa websérie seguiram-se vários
outros. Vi como seu portifólio está recheado de imagens. Orgulho
ver tudo isso, ver alguém que você acompanha produzindo trabalhos tão bonitos,
tão poéticos e vários deles em parceria com sua irmã e sua mãe, duas queridas e
super talentosas em tudo que fazem.
Isis Appes, eu, Cibele Appes
A memória não diz respeito ao passado, apenas, mas está
atrelada à composição de nosso presente. E as amizades permanecem pulsantes,
mesmo que a gente passe um tempo sem se ver, quando os reencontros acontecem, toda
a força e carinho que temos por essas pessoas voltam. Por isso
foi tão bom ter esses encontros e reencontros ontem.💜
E sobre esse carinho, essa relação afetiva com a Cinemateca,
lembrei-me de um trecho do livro Ver e Poder do Comolli: “Para nós, jovens
espectadores dos anos de 1950 e 1960, as salas de cinema eram nossas salas de
aula, a cinemateca, nossa universidade”. Nos “anos 2000”, a Cinemateca
Brasileira também foi como uma universidade para mim...
Foi no início daquele ano que começamos a redigir as linhas que chegam agora aos leitores. Estávamos em plena pandemia de Covid-19. Naquele momento eu atuava em turmas de ensino médio e em cursos técnicos da Etec Cepam e vivia os últimos meses de meu segundo contrato por tempo determinado na escola.
Esses dois textos, além do que eu já redigi neles, carregam uma vontade de permanecer viva, já que eu administrava a fragilidade inerente ao período pandêmico, imersa em seus múltiplos desdobramentos, tanto pessoais, quanto político-sociais. Esses anos foram agravados (é preciso dizer, não podemos esquecer), por um governo acachapante/destruidor para nosso país, piorando ainda mais a sensação de angústia daqueles dias.
Para muitos de meus alunos, por exemplo, viver aquele período não foi nada fácil... para mim também não foi, mas, de todo modo, busquei permanecer firme, busquei transparecer uma força acolhedora, típica daquela imagem de "porto seguro" que a gente projeta em algo ou alguém quando quer se abrigar, quando quer descansar antes de seguir para as próximas etapas do caminho...
Além disso, eu vivia uma busca ininterrupta por um novo emprego, já que aquele contrato na Etec estava acabando. Concomitante ao envio incessante de currículos, também pleiteava uma vaga no doutorado. Esperava conseguir uma coisa ou outra... para minha alegria, alguns meses e inúmeras entrevistas depois, consegui o tão aguardado "sim", e, em dose dupla: emprego e doutorado!
Retornando ao que dizia sobre o processo de escrita, além de cuidar de meus dois textos, também acompanhei a construção do evento, participei de reuniões com os demais colegas e estive perto, em especial, do processo de escrita dos textos da Anna Julia e do Theo, pois, à época, eram meus alunos de ensino médio na Etec Cepam e também participantes (bolsistas CNPq) da pré-iniciação científica que eu supervisionava. Foi uma experiência intensa e um grande aprendizado, pois, para além de todos os meandros que envolvem o trabalho de um/a professor/a, quando acompanhamos o desenvolvimento dos alunos inseridos em uma turma, no caso deles, tínhamos uma agenda de reuniões que organizou nossas inúmeras conversas. Buscamos imaginar o quê queriam dizer e dialogar sobre como queriam expor, com qual recorte, com quais palavras...
No dia do lançamento a gente sentou na primeira fila, orgulhosos de estarmos ali depois de tanto trabalho. Comentei com eles que achei interessante ver tudo pronto agora, finalizado, publicação no mundo, textos sendo comentados, lançamento feito e lembrar de como foi o processo de feitura: um vai e vem de escritas e reescritas. Longe do ideal romântico que imagina o autor como aquele gênio que escreveu tudo numa sentada, o processo de escrita (ao menos aqui...) requereu um labor persistente, além de uma paciência escultórica, desejosa por compartilhar aquelas vivências e, ao mesmo tempo, ciente da necessidade de adentrar cada palavra, intercalando miradas para a completude do texto, que, por sua vez, encaixavam-se na abrangência da problemática que o livro buscava delinear. Como dizia, é curioso olhar tudo isso agora, rebobinando essa fita, esses frames vitais que vivemos, minuto a minuto, aula a aula, reunião a reunião, página por página, letra por letra...
Theo, eu e Anna Julia :)
Mais de dois anos depois, cá estamos... Há alguns dias aconteceu o evento de lançamento, organizado pelo Instituto de Estudos Avançados, na Faculdade de Educação da USP. Que bom revisitar esse espaço, onde passei alguns bons anos de minha vida, durante o período do mestrado.
Que maravilha rever meus alunos depois de toda a dedicação que investimos nesses textos. E, que curioso, conhecer a Lara pessoalmente... ela dividiu a mesa do evento comigo e só nos vimos pessoalmente nesse dia, pela primeira vez. O mesmo aconteceu com outras pessoas, que se viram pela primeira vez ali no dia 14... sim, vivemos tudo isso... passamos por isso... temos essas memórias e essas vivências para compartilhar...
Natália Gil, Theo, Anna Julia, eu, Lara, Valéria, Ana Laura
Como se já não fosse o bastante tudo que li, vivi e escrevi durante o processo de produção desses textos que agora compõem o livro, o dia do lançamento foi memorável e demandou mais algumas linhas, essas aqui, esse sobrevoo a pensar e a remontar fragmentos.
O ambiente escolar segue em transformação, e, cada vez mais, nós, profissionais da educação, pleiteamos o direito de imaginar, de participar da construção de repertórios e imaginários. Tal pleito, entendo, configura-se como um direito político, capaz de amplificar e solidificar, cada vez mais, o desenvolvimento de nossas vidas e de nosso país, bem como alicerçar as bases para termos cada vez mais segurança e diálogo nas escolas. Sigamos, sonhando e construindo, juntos, esse ambiente escolar, do qual fazemos parte: somos força vital e coletiva de sua transformação.
Essa publicação é fruto de um evento do qual participei, em 2021, no Instituto de Estudos Avançados da USP, cujo foco foi debater as transformações no ambiente escolar a partir de experiências vivenciadas no período da pandemia de Covid.
Contribuí com dois textos para a primeira parte do livro, resultado de um debate realizado com estudantes e profissionais da educação básica.
Feliz pela publicação e grata pela oportunidade de contribuir com esse belíssimo projeto!
***
CAZETTA, Valéria ; LIMA, Ana Laura Godinho (orgs.). O ambiente escolar em transformação. Campinas: Alínea, 2022.
Depois de todo o período de confinamento vivido no contexto pandêmico, no sábado, dia 18/06, fui ao cinema. Nem lembro exatamente qual foi a última vez, mas passei mais de dois anos sem ir...
Fui ao Instituto Moreira Salles. Revi uma amiga, que é projecionista lá e assisti ao documentário Amigo Secreto de Maria Augusta Ramos. Com uma cuidadosa articulação, o filme expõe vários acontecimentos que desembocam na crise política e social que vivenciamos atualmente, diante de um cenário de crescente desemprego, fome, inflação, bem como de escalada da violência respaldada por discursos de ódio. A cineasta entrelaça a produção de notícias por jornalistas do El País e do The Intercept sobre a divulgação de conversas entre membros da Operação Lava Jato e o juiz que à época atuava no caso... uma conjunção fraudulenta respaldada pela justificativa de "combate à corrupção", cujo saldo foi, nada mais, nada menos, a destruição de inúmeras empresas e uma escalada crescente de desemprego e de diversos problemas sociais que vivenciamos hoje... Quem puder, vá e veja.
Esse retorno às telonas ocorreu em um cinema na Avenida Paulista, na véspera da Parada.
Além do abismo social do qual a Paulista é palco cotidianamente, dividindo espaço entre prédios comerciais gigantescos, executivos em seus paletós, bikers na ciclovia a passeio e/ou a trabalho, carros populares e carros de luxo, moradores de rua e adolescentes a esmo, além de tudo isso, do alto do IMS pude ver uma concentração de pessoas coloridas, por conta da Caminhada de Mulheres Lésbicas e Bissexuais de São Paulo.
Essa foto traz vários Brasis em um mesmo enquadramento...
Depois da sessão, de pouco mais de duas horas, conversa, bons drinks e uma caminhada pela avenida, da maneira como eu também não fazia há mais de dois anos...
A Paulista estava com aquela garoa fina característica de Sampa. E estava toda colorida, com várias pessoas caminhando, pronta para receber mais de 3 milhões de pessoas, no dia seguinte.
Entre o fim do ano de 2021 e o início de 2022, algumas mudanças ocorreram em diferentes áreas de minha vida. Uma delas, trata-se do ingresso na equipe da Frente Educacional da Gerência de Operações do SENAC São Paulo.
Aluna do SENAC em 2007 e em 2014, ingressar como profissional nessa instituição é um sonho antigo e, desde 2013, foram 27 tentativas.
Estou contente por tantos aprendizados já nesses primeiros meses na equipe! 😀
Esta semana marcou a finalização de mais um ciclo de 2 anos na Etec Cepam. Como disse a colegas e estudantes, me senti em final de temporada, rs.
E, nesta segunda temporada, novamente aprendi muito e conheci pessoas incríveis, com as quais pude compartilhar cotidianamente dessa aventura do pensamento que é o ofício docente.
Os últimos dias foram intensos. Ponderei muito sobre a importância da educação em minha vida e na vida de estudantes com quem convivi em aulas semanais nos últimos dois anos. Acompanhei algumas turmas desde o início do ensino médio até agora no terceirão, com estudantes prestes a se formar, terminando TCCs, gradativamente a construir o sonho do ensino superior e imaginando seu futuro profissional. Uma peculiaridade foram as turmas que iniciaram o 1º ano agora na pandemia, entre telas. Cada dia de aula era sempre único diante do desafio que, estudantes e professoras(es), tínhamos em comum, de lidar com toda aquela dinâmica da ambiência online sem termos tido um contato presencial anterior a tudo isso. Aprendi muito, muito mesmo com essa experiência...
A supervisão de uma pré-iniciação científica, junto com a Valéria Cazetta e tendo três estudantes como bolsistas do CNPq (Anna Julia, Beatris e Livia), foi sem dúvida um dos marcos desse período. Aprendi muito com essa experiência. Foi muito bonito acompanhar a transformação paulatina e significativa na vida das estudantes (e também na minha) durante esse processo. Acompanhar periodicamente suas pesquisas, perceber mudanças no modo de escrever, de apresentar suas ideias nas reuniões, nos debates, nas trocas. Muito bom.
E articulada a essa experiência, ocorreu uma outra, a participação no evento “O Ambiente Escolar em Transformação” que teve a Valéria como uma das organizadoras pelo IEA-USP. Além das pesquisas da pré-IC, Anna e Beatris participaram de uma mesa de debates que mediei, e, para a qual, nos preparamos por alguns meses, num processo intenso de diálogo e escrita. Muito feliz pela oportunidade de ter vivido isso - https://youtu.be/JdCjDVOpHUo
A Semana Paulo Freire, em maio, foi um outro marco dessa “segunda temporada”. Foi intensa e bonita a maneira como a gente foi construindo o evento, dialogando, planejando, dividindo o trabalho em equipes, convidando pessoas queridas para compor os debates... foi muito bacana, inesquecível! (spf.gestaopublica.etc.br).
E tudo isso nesse contexto difícil de pandemia, crise política, desemprego...
Assim foram esses dois anos. As aulas entre o final de 2019 e o começo de 2020 foram presenciais, mas depois tivemos que lidar cotidianamente com essa ambiência entre telas. Inclusive, ao selecionar fotos para compor essa postagem, notei que, desta temporada, tenho poucas imagens arquivadas. Em outro momento, presencialmente na escola, fazíamos mais fotos. Dessa vez restaram apenas alguns prints solitários das reuniões em plataformas de videoconferência, além de uma ou outra foto que postei no instagram nas andanças do início de 2020 na Usp, a caminho das aulas.
Deste modo vivi esse ciclo, entre aulas diárias, reuniões, conversas, sistemas, plataformas, pdfs, links, agendas, grupos e mais grupos de whatsapp, e-mails... entre uma e outra live, um e outro encontro, tentando articular o que nos era possível de debates e diálogo para lidar com esse período remoto.
Preciso dizer, é uma pena que os contratos de professores/as cada vez mais funcionem nessa lógica de contratos temporários... essa é uma parte triste de tudo isso que vivi. Não apenas eu, mas tantos outros/as colegas, excelentes professores/as também passam continuamente por essa interrupção. Descontinuidades que ocorrem tendo em vista esse tipo de contratação, por tempo determinado, amplamente utilizado na educação de modo geral...
De todo modo, levo comigo todas essas experiências e fico feliz por ter compartilhado inúmeras delas com as/os colegas professoras/es e de ter participado desse período da formação de tantos jovens estudantes, por quem torço muito para que conquistem seus objetivos e sonhos. Foram dois anos de muito crescimento e aprendizado, dos quais sentirei saudades.