terça-feira, 30 de dezembro de 2025

[Texto publicado] O movimento de reencontro em documentários autobiográficos: retornar aos corpos, arquivos e objetos de uma vida

 


Às vésperas do Natal, eu e minha orientadora, Fabiana Marcello, ganhamos esse presente: foi publicado o primeiro texto oriundo de minha pesquisa de doutorado. Trata-se da primeira publicação conjunta desse processo de trabalho que temos construído ao longo do doutorado desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Esse texto começou a ser pensado a partir das experiências vividas em Lisboa, como um dos resultados dos dois períodos internacionais de investigação que tive, com financiamentos da CAPES e da FAPERGS, junto ao projeto Film and Death, no Instituto de Filosofia da Universidade NOVA de Lisboa (IFILNOVA).

O texto, intitulado “O movimento de reencontro em documentários autobiográficos: retornar aos corpos, arquivos e objetos de uma vida”, foi publicado no dossiê “Death-Images: Revisiting Deleuze’s ‘Time-Image’ in Cinema after 1985”, organizado por Lucas Ferraço Nassif, Marco Grosoli, Vasco Baptista Marques e Susana Viegas na Revista de Comunicação e Linguagens

🔗 Está disponível AQUI.


RESUMO

O movimento de reencontro em documentários autobiográficos: retornar aos corpos, arquivos e objetos de uma vida

Neste  texto,  analisamos  o  trabalho  de  três  artistas  (dois  cineastas  e  um  artista  plástico),  com  o  intuito  de  refletir  sobre  o  papel  dos  arquivos  e  objetos  no  movimento  de  reencontro  que  realizam  nas  produções  em  questão.  São  elas:  o  filme  Visita  ou  Memórias  e  Confissões  (1982-2015),  de  Manoel  de  Oliveira;  o  documentário Por  Parte  de  Pai  (2018),  de  Guiomar  Ramos;  e  a  exposição  Ritornare  (2024),  de  Vasco  Araújo.  Detivemo-nos  especialmente  nos  dois  documentários  autobiográficos, nos quais buscamos deslocar o modo de pensar a função dos arquivos e objetos. Argumentamos que, ao desejarem reencontrar-se com o passado, ambos os cineastas mobilizam arquivos e objetos, os quais, no contexto de cada filme, se tornam coparticipantes de uma relação lazariana com a morte. Ainda que esses filmes promovam baralhamentos de temporalidades, é justamente por meio desses elementos — arquivos e objetos — que se materializam encontros entre diferentes pontas  de  tempo,  atuando  como  suportes  de  presença  e  de  diálogo  com  aqueles  que já se foram.


ABSTRACT

The movement of reencounter in autobiographical documentaries: returningto the bodies, archives, and objects of a life

In  this  article,  we  analyze  the  work  of  three  artists  (two  filmmakers  and  one  visual  artist)  with  the  aim  of  reflecting  on  the  role  of  archives  and  objects  in  the  movement  of  reencounter  enacted  in  their  respective  productions.  These  are:  the film Visit or Memories and Confessions (1982-2015), by Manoel de Oliveira; the documentary Requiem  for  my  father  (2018),  by  Guiomar  Ramos;  and  the  exhibition Ritornare  (2024),  by  Vasco  Araújo.  We  focus  in  particular  on  the  two  autobiographical documentaries, in which we sought to shift understandings regarding the  function  of  archives  and  objects.  We  argue  that,  in  their  desire  to  reconnect  with the past, both filmmakers mobilize archives and objects that, within the con-text  of  each  film,  become  co-participants  in  a  Lazarean  relationship  with  death.  Although these films enact temporal entanglements, it is precisely through these elements  —  archives  and  objects  —  that  encounters  between  different  temporal  layers  are  materialized,  acting  as  supports  for  presence  and  for  dialogue  with  those who are no longer here.






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terça-feira, 26 de agosto de 2025

[Texto publicado] Arquivos pessoais, audiovisual e educação: uma zona de fronteira

 



Nesse texto, proponho uma discussão para pensar o embaralhamento de fronteiras, entre audiovisual, arquivos pessoais e educação endereçando-me a dois filmes: No intenso agora, de João Moreira Salles e Hachazos de Andrés Di Tella. Os dois cineastas articulam arquivos pessoais para pensar e compor suas próprias experiências. 

A discussão desse texto articula-se ao artigo publicado recentemente na Revista Acervo, sobre o qual escrevi no blog AQUI

O livro, organizados pelas professoras Ana Laura Godinho Lima, Denice Catani e Juliana de Souza Silva reúne diversos pesquisadores da área e propõe uma discussão sobre o potencial de alguns materiais como fontes de pesquisa pelos estudos em educação. 

No capítulo Arquivos pessoais, audiovisual e educação: uma zona de fronteira, proponho essa análise visando evidenciar a potência do audiovisual como fonte para a pesquisa educacional.

O livro está disponível AQUI.





GONÇALVES, Ingrid Rodrigues. Arquivos pessoais, audiovisual e educação: uma zona de fronteira. In: Ana Laura Godinho Lima; Denice Catani; Juliana de Souza Silva. (Org.). Os estudos educacionais e suas fontes: questões de pesquisa e ensino. 1ed.São Paulo: Intermeios, 2025, v. 1, p. 159-182.

[Texto publicado] Arquivos de uma vida: uma zona de fronteira

 


Texto publicado no Revista Acervo, fruto de uma discussão feita na minha dissertação de mestrado em Educação, sob orientação da Profa. Dra. Cintya Regina Ribeiro, realizada na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP).

A discussão desse texto articula-se ao capítulo publicado recentemente no livro Os estudos educacionais e suas fontes: questões de pesquisa e ensino, sobre o qual escrevi no blog AQUI

Título: Arquivos de uma vida: uma zona de fronteira

Ingrid Rodrigues Gonçalves e Cintya Regina Ribeiro


Texto completo: Acesse aqui em PDF


Resumo: Neste texto, abordamos a fragilidade e a força do conceito de arquivos pessoais. Analisamos os estudos de diferentes autores que indagam a validade desse conceito e sugerem outros termos para nomeá-lo. Nesse sentido, propomos a expressão “arquivos de uma vida”, visando promover um deslocamento das discussões empreendidas e enfatizar os processos envolvidos na produção desses materiais, os quais nos permitem pensá-los como uma zona de fronteira.

Palavras-chave: arquivos; arquivos pessoais; educação; subjetividade.


GONÇALVES, I. R.; RIBEIRO, C. R. Arquivos de uma vida: uma zona de fronteira. Acervo, [S. l.], v. 38, n. 2, p. 1–22, 2025. DOI: 10.64729/an.acervo.v38i2.2402. Disponível em: https://revistaacervo.an.gov.br/index.php/revistaacervo/article/view/2402. Acesso em: 26 ago. 2025.


Publicado em agosto/2025

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domingo, 20 de julho de 2025

Um filme que marcou e segue marcando minha vida e meus processos de escrita...


Estava a trabalhar na tese de doutorado e, num momento de descontração, num rolar de dedos no feed do instagram, me deparei com a abertura do processo de inscrição para uma oficina de crítica cinematográfica. 😍

E, como gosto pouco de escrever, pausei um pouco a tese e rapidamente me pus a responder o formulário de inscrição. A última questão, que se dizia determinante para o processo seletivo, era: "Qual é o filme que marcou a sua vida, e por quê?". Não demorei nem um minuto para decidir o que responder, afinal, estava justamente a revisar a tradução em inglês de um capítulo da tese que figurará em um livro sobre film-philosophy organizado pelo Projeto Film and Death, e aborda justamente esse filme, dirigido por uma pessoa querida que conheço há tantos anos... 


Aqui está minha resposta: 


Para responder essa pergunta vou optar por subverter a definição do artigo “o” e deslocá-lo para o território indefinido do “um”. Nesse caso, a questão seria, portanto sobre “um” filme que marcou minha vida. 

Mirando desta maneira, indico o filme Por Parte de Pai, de Guiomar Ramos, pois trata-se de um documentário autobiográfico, no qual ela busca dialogar com seu pai, por meio de um movimento de reencontro com arquivos, lugares, trajetos e pessoas, entre Brasil, Portugal, França e EUA. Seu pai, Vitor Ramos, foi professor de literatura francesa da USP e membro do partido comunista português. Sua vida articulou trajetos intelectuais e políticos em diferentes locais, e, por isso, a opção da cineasta por reencontrar o pai por meio do diálogo com essas materialidades.

Eu e Guiomar trabalhamos juntas nas Oficinas Kinoforum, no início dos anos 2000. Ela, como professora, e eu, produtora de set. Minha sorte, por atuar nos locais das oficinas, era ter a possibilidade de assistir as aulas e acompanhar os processos de feitura dos filmes. Um diálogo com teoria e prática e com ideias efervescentes de jovens realizadores.

Os anos passaram. Em 2017 participei da exibição de um corte final desse filme. Uma exibição ao ar livre, para amigos, pois ela queria opiniões externas às da sua equipe. Eu estava escolhendo filmes para composição de meu material analítico da pesquisa de mestrado e, posso dizer, que o encontro com esse filme me ajudou a conectar um emaranhado de fios teóricos e temáticos da pesquisa. Dentre diversas possibilidades de análise, chamou minha atenção como ela efetivou um diálogo belo e potente com seu pai, passível de composição daquele modo, pois se deu com seu pai “nos” e “dos” documentos.

Foi o primeiro capítulo que concluí da dissertação. E foi o primeiro texto que publiquei oriundo daquela pesquisa. E esse filme segue presente na pesquisa de doutorado. 

Por isso, Por Parte de Pai não apenas marcou, mas segue marcante para mim, pois segue a inspirar escritos e ponderações. Além disso, lembro bem que quando enviei a ela minhas impressões escritas, no dia seguinte à exibição, ela me retornou dizendo que era um texto digno de crítica cinematográfica, portanto me parece propício lembrar de escrever sobre esse filme aqui, nesse contexto.

E, retomando o dilema do “o” ou do “um”, me parece que pensar com o artigo indefinido tem aberto possibilidades de análise. A exemplo do modo como busquei analisar o filme de Guiomar até o momento, mirando o processo de feitura do filme e o modo de dialogar com alguém querido, em delay, via arquivos. Um modo de pensar que interessa tanto ao campo educacional quanto ao cinema, tendo em vista que o audiovisual compõe parte de nossas vidas cotidianas, e, além disso, articula diálogos com diferentes campos de conhecimento, possibilitando não apenas “a” leitura, mas “uma” multiplicidade de articulações para pensar nossas próprias vidas na contemporaneidade.